Pecuaristas refutam tese do Sindicarnes sobre escassez do gado para abate: “somente produtor é penalizado”, diz criador

Membro do “Levanta a Cabeça” defende, inclusive, prorrogação da redução, que acaba em 31 de janeiro. “Redução de abate nos frigoríficos se deve à descapitalização dos pecuaristas, aumento do custo de produção e a não remuneração do produto que temos para vender”, disse Wagner Borges.


Integrante do movimento “Levanta a Cabeça”, que mobilizou pecuaristas na reivindicação para a redução da alíquota do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) na venda do gado vivo, o economista Wagner Borges saiu em defesa de produtores sobre o tema após entidades que representam os frigoríficos emitirem diversos comunicados à imprensa criticando a redução ocorrida há dois meses.

Ele classificou de “legítima” a manifestação de entidades como o Sindicarnes e Fieto, contrários à redução da alíquota de 7% para 4% para venda do animal a outros Estados. Porém, Borges contestou os argumentos dos representantes das empresas em relação à falta de matéria-prima e reforçou que o ideal para os produtores seria a prorrogação do período da redução, que se encerra em 31 de janeiro próximo.

“Em janeiro a redução acaba. A redução deveria continuar, mas não com gado de reposição. O gado de reposição não deveria ter essa baixa de alíquota. Para o gado de abate a oferta vai aumentar. E teremos reduções significativas de preço”, disse Wagner Borges, que é diretor do Sindicato dos Produtores Rurais de Araguaína (SRA). “Já a redução de abate nos frigoríficos se deve à descapitalização dos pecuaristas, aumento do custo de produção e a não remuneração do produto que temos para vender”, complementou.

Segundo ele, a baixa da alíquota do ICMS foi feita numa época da escassez do boi gordo, de seca, de pragas, entre outros problemas que interferem no custo de produção. “De janeiro para frente que teremos excedente de produção de boi gordo. Nessa época que teria que se ter redução. Daí, o excedente pode ser vendido para outros Estados”, comentou.

Os argumentos do economista ganharam apoio da diretora-tesoureira do SRA, Marilene Borges, que também refutou a tese do Sindicarnes e das demais entidades, segundo a qual, a escassez de gado para abate no Tocantins se deve à redução da alíquota do ICMS. “O Sindicarnes alega que não tem oferta [de gado] porque baixou a alíquota. Não há fundamento. Não está tendo boi gordo. Desde que a alíquota baixou já estava na entressafra. Seca prolongada e as queimadas diminuíram substancialmente a quantidade de gado em condições de abate. E nos açougues estão reclamando que não tem vacas gordas e estão comprando gado magro”, comentou.

Em nota, o Sindicarnes informou que os frigoríficos do Tocantins têm hoje uma capacidade instalada de abate de 2 milhões de cabeças/ano, mas já trabalha com ociosidade superior a 50%. “Nos últimos três anos temos registrado quedas seguidas no número abate. Em 2014 foram abatidos pouco mais de um milhão de cabeças (1.000.000), em 2015 em torno de novecentas e quarenta mil (940.000), em 2016 aproximadamente novecentos mil (900.000) e, em 2017, deveremos atingir somente oitocentos e cinquenta mil (850.000) cabeças”, informou o Sindicarnes.

OS PREÇOS

Ao comentar a relação de preço cobrado pelos frigoríficos ao produtor e os valores da carne vendidos ao consumidor, Wagner Borges foi direto: “O produtor já vem sendo penalizado. E na gôndola do supermercado o preço nunca caiu, ou seja, o consumidor nunca foi beneficiado e somente o produtor é penalizado”.

No final do mês de julho, quando o movimento “Levanta a Cabeça” ganhou força no Tocantins, a arroba do boi chegou a registrar desvalorização de 11% para o produtor. Em valores reais, o preço da arroba do boi gordo chegou a R$ 118,00. Entretanto, o movimento fechou questão: não vender aos frigoríficos gado com valores abaixo a R$ 130,00 a arroba, preço praticado antes da crise provocada pelos reflexos da operação Carne Fraca e desenrolar das descobertas das falcatruas dos donos do grupo JBS, maior empresa do Brasil que praticamente dita as normas do mercado da carne no país. “Pecuaristas estão com aumento de insumos. Seca prolongada também nos prejudicou, sem contar o Funrural que está penalizando o produtor. Uma parte das fazendas hoje está no vermelho”, disse Wagner Borges.

Ainda conforme ele, a estratégia dos frigoríficos se repetirá no início deste ano: “Vão aumentar produção e segurar abate para forçar novamente novas baixas no preço da arroba ao produtor”.

O CONSENSO

Para Wagner Borges, é preciso chegar a um consenso para que a cadeia da pecuária solucione esse problema. “É legítima a defesa do Sindicarnes e Fieto aos frigoríficos, pois é a classe que eles representam. Porém, o Estado tem os mecanismos regulatórios. Em determinado momento, se houver diferença, que regularize os valores. Mas, as duas partes têm que se equacionar. Um lado só não pode se romper, não pode ser destruído. Deve se encontrar maneira para que os dois possam trabalhar e se manter”, finalizou.

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